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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ali Babá e os 40 Ladrôes

Ali-babá e os Quarenta Ladrões

Maria Tereza Cunha
CAPITULO 1
ABRE-TE SÉSAMO
Numa pequena cidade da Pérsia viviam dois irmãos: Ali-Babá e Cassim.
Enquanto crianças eram muito unidos, brincando sempre juntos e repartindo
entre si os brinquedos ou frutas que cada um ganhasse.
- Que bela amizade une esses dois meninos! comentava quem os visse
entretidos um com o outro, à porta de sua casa ou pelas ruas da cidade.

Já mocinhos perderam o velho pai que deixou apenas um pequeno saco
de moedas para cada um. Deveriam continuar unidos, apesar de pobres.
Mas a sorte incumbiu-se de separá-los.
Cassim, o mais velho dos dois, apaixonou-se por uma jovem ambiciosa e
pouco depois casava-se com ela. No próprio dia do casamento receberam a
notícia de que a moça herdara de um velho tio uma enorme e próspera loja
de tecidos, calçados e tapetes. Sem ter sido interesseiro, pois até então a
moça era pobre, Cassim tornou-se rico pelo casamento! Inteligente e ativo,
estimulado pela ambição da mulher, em pouco tempo era o mais abastado
mercador da cidade.
Ali-Babá não teve tanta sorte. Desposara uma jovem tão pobre quanto ele
próprio, e nenhuma herança veio livrá-los da miséria. Para sustentar-se, a
esposa e aos vários filhos que tiveram fez-se lenhador e trabalhava ao sol e
à chuva cortando lenha num bosque próximo. Depois, com o auxílio de três
burricos - únicos bens que possuía e que comprara com as moedas
deixadas por seu pai - ia vender a madeira na cidade.
Seu trabalho era pesado e muitas vezes precisava pernoitar no bosque.
Mas era corajoso e forte, disposto sempre a carregar seus animais e assim
ganhar o sustento da família.
Uma manhã, depois de derrubar um tronco enorme e quando se dispunha
a cortá-lo em pedaços, ouviu um estranho tropel.
- Quem se aproximará deste sítio tão distante e deserto? pensou ele.
Subindo ao tronco divisou ao longe uma nuvem de poeira que se
aproximava. Logo pôde distinguir o grupo de cavaleiros que a levantavam
do chão batido pêlos cascos de seus cavalos. Galopavam naquela regiâo.

- Nunca ouvi falar de bandidos por esta zona. Mas creio ser melhor
ocultar-me pois eu sou um apenas e eles são muitos, pensou Ali-Babá.
Palpita-me que não são gente de bem!...
Num instante o lenhador pulou de seu posto e, ágil, galgou frondosa e
imensa árvore. Acomodado no alto dela, dificilmente poderia ser descoberto
por um inimigo, se bem que tivesse ele próprio uma ampla visão do terreno
em torno. Descortinava quase todo o panorama do bosque e apenas à direita
seu olhar era tolhido por um rochedo imenso, quase a pique, que se elevava
do solo.
Mal subira à árvore, eis que os cavaleiros chegaram, e se apearam.
- São ladrões, não há dúvida! monologou Ali-Babá. Realmente ali
estava um bando de facínoras, altos e fortes, armados até os dentes com
facas, punhais e alfanjes recurvos. Vestiam-se ricamente, apesar de sujos e
mal encarados.
Deviam praticar seus roubos em terras distantes, pois Ali-Babá jamais
ouvira falar deles.
- Certamente apenas se reúnem aqui, pensou Ali-Babá, tratando de
contá-los.
- Quarenta! murmurou por fim, assustado. Os ladrões descarregaram
seus animais e o lenhador viu amontoarem-se ali no chão sacos e mais sacos.
- Cuidado com o ouro! gritou um deles para os outros. Se os sacos se
abrem é uma pena, pois dessa vez é ouro em pó!
- E não arrastem o fardo de jóias! Elas têm mais valor in tatás! gritou
outro.
- Pior são os brocados, que se rasgam! gritou um terceiro.
Nesse momento o mais alto dos homens, bem vestido e imponente, abriu
caminho por entre os outros e aproximou-se do rochedo.
- É o chefe dos ladrões! pensou Ali-Babá.

Era o chefe, realmente. Com passo firme rumou para a pedra da rocha em
frente, como que disposto a galgá-la. Ali-Babá seguia intrigado os seus
movimentos pois sabia inesca-lável o rochedo.
de Súbito, a poucos passos das pedras, o chefe dos ladrões estacou. E com
voz sonora e forte, gritou:
- Abre-te Sésamo!
Como que por encanto algo se moveu na escarpa dura. Um ruído surdo se
tez ouvir e uma pedra chata e enorme girou sobre si mesma abrindo na
montanha uma porta. Imediatamente os homens, ajudando-se mutuamente,
transportaram seus roubos para dentro da rocha. Quando o último deles
entrou, o chefe seguiu-o e a pedra tornou a fechar a abertura.
- Devo ir embora enquanto eles estão lá dentro. Pensava Ali-babá consigo
mesmo.
E já se dispunha a escorregar árvore abaixo quando a prudência o deteve.
- São capazes de sair de um momento para o outro. Se me vêem, adeus
Ali-Babá! O melhor é ficar aqui oculto até que tornem a sair, pensou ele.
Por sorte seus burricos, ocultos no mato, não haviam chamado a atenção
dos bandidos.
Por muito tempo os ladrões ficaram fechados na rocha. Enquanto isso o
lenhador arquitetava planos de retirada, sempre porém terminando pela
resolução de não se precipitar. Pensou mesmo em fugir montado num dos
belos cavalos árabes que os homens ali haviam deixado pastando.
- Ganho o cavalo mas fico sem os meus burrinhos, pensou no entanto.
Não poderei levar os três a reboque, pois são muito lerdos.
Sua posição sobre a árvore já se tornava incómoda, mas Ali-Babá era
paciente e precavido.


Finalmente o ruído surdo fez-se ouvir novamente, a pedra de novo girou
sobre si mesma e a fenda se abriu. Um a um foram surgindo os ladrões. Por
último apareceu o chefe que, estacando, voltou-se para a rocha e gritou:
- Fecha-te Sésamo!
A porta se fechou. Os bandidos selaram seus cavalos, montando-os em
seguida. Adiantando-se então, o chefe encabeçou o grupo e partiram todos,
tomando o mesmo caminho por onde haviam surgido.
- Mais um pouco de paciência, murmurou Ali-Babá consigo mesmo.
Podem ter esquecido algo na gruta! Se me descobrem aqui estou perdido!
Os ladrões, no entanto, desapareceram. O silêncio tornou a reinar em todo
o bosque. Do alto da árvore Ali-Babá via longe, só quando julgou
prudente, desceu.
Tomou seus burros de carga pelas rédeas e já ia fugindo às pressas
quando em seu espírito surgiu uma ideia:
- Quem sabe se consigo também abrir a pedra? Sei a palavra mágica de
cor! Basta-me pronunciá-la.
Emocionado mas cheio de curiosidade, Ali-Babà animava-se:
- Talvez essa aventura me traga a almejada fortuna! E se me arriscar
um pouco talvez tenha algum lucro.
Assim pensando, o lenhador aproximou-se da rocha. Olhou em torno,
cauteloso, pigarreou e, engrossando a voz, ordenou:
- Abre-te Sésamo!
Fantástico! A porta de pedra rangeu, soturna, e, girando lentamente,
abriu-se!
Ali-Babá, trémulo, aproximou-se da abertura no rochedo. Esperava
encontrar uma caverna escura e suja. Estacou, porém, boquiaberto, ao
deparar com aquele interior da rocha.
Era uma gruta imensa, iluminada por uma abertura lá em cima, no alto da
montanha. No chão, coberto de tapetes

preciosos, amontoavam-se jóias e brocados; nas paredes, armas polidas
rebrilhavam. Divãs caros alinhavam-se nos cantos e pipas de vinhos preciosos
amontoavam-se também num ângulo da gruta. Além disso os mais variados
objetos preciosos se espalhavam por todo canto, desde caixotes de moedas de
ouro até estatuetas ou jarrões de caríssima porcelana ou cristal.
- Esta gruta deve ser abrigo de ladrões há muitos séculos, pensou. De outro
modo como poderia existir tal tesouro junto?
Tonto, diante de tantas preciosidades, Ali-Babá penetrou na gruta seguido
pêlos três burrinhos. A porta imediatamente fechou-se atrás dele.
- Mais seguro estou fechado, pensou ele.
Então Ali-babá pegou alguns sacos de moedas e foi-se embora.
- Não devem sentir falta destes sacos, afinal, aqui tem tantos...
Pensava Ali-babá.


CAPÍTULO 2 A MOEDA DE
OURO
Ao ver aquela fortuna em moedas de ouro a mulher de
Ali-Babá quase desmaiou.
- Infeliz! gritou ela. Meu pobre Ali-Babá, que fizeste tu? Estava certa de
que seu marido cometera alguma infâmia
pois só assim poderia ter conseguido tanto dinheiro. Ali-Babá
interrompeu-a, no entanto, dizendo:

- Sossega, minha mulher. Não sou ladrão! O que trago foi tirado de
uma gruta de ladrões, não há dúvida. E não creio que tirar deles seja roubar.
- Que dizes tu, Ali-Babá? Não te compreendo!... respondeu-lhe a
mulher.
O lenhador contou-lhe então toda a sua aventura e concluiu dizendo:
- Meu avô era um homem abastado. Um dia, porém, uma caravana com
todos os seus haveres foi assaltada numa estrada do país. Desde então
ficamos pobres. E não me resta a menor dúvida de que esse assalto foi obra
de antepassados desses ladrões. É minha pois uma parte dos seus tesouros!
- Creio que tens razão, concordou a mulher tranquilizada.
- Guarda pois segredo, minha mulher. Com o tempo repartirei com
Cassim minha fortuna. Por hora cala-te ou os ladrões saberão de meu
achado e darão cabo de nós.
- Não te preocupes, respondeu ela. Saberei guardar segredo. Mas,
dize, Ali-Babá, não achas que devemos contar as moedas de ouro que
temos?
- Estás louca? perguntou Ali-Babá. Levaríamos horas contando todas
elas. E nesse tempo alguém poderia nos surpreender e descobrir nosso
segredo. É melhor enterrarmos as moedas! Não percamos tempo.
- Acho porém que devemos saber quanto temos, pelo menos
aproximadamente. Vou pedir uma vasilha de medir cereais a um vizinho.
Enquanto cavares o buraco eu própria medirei as moedas.
- Não aprovo a tua ideia, respondeu Ali-Babá. Seria muito mais sensato
desistires dela. Mas não quero te contrariar. Peço-te apenas que sejas o mais
discreta possível. Guarda bem nosso segredo ou seremos prejudicados.
Sem ouvir mais as palavras de Ali-Babá, sua mulher correu à casa de
Cassim, que não morava longe.

- Onde está meu cunhado? perguntou à sua mulher que a recebeu de má
vontade pois desprezava esses parentes pobres.
- Saiu para compras, respondeu ela, desdenhosamente.
- Pois então falo contigo mesma: queres emprestar-me uma vasilha de
medir?
- Bem pequena, não é? perguntou a mulher de Cassim.
- Ao contrário! Quero a maior medida que tiveres, respondeu a outra.
- Pois não, já vou buscá-la.
Assim dizendo a mulher de Cassim foi para a cozinha, pensando
curiosíssima:
- Que terá Ali-Babá para medir, se é tão pobre? Mal têm o que comer!...
Alguma coisa estão ocultando de nós.
Teve então uma ideia: dentro da vasilha, bem no fundo, aplicou uma
pequena camada de cera mole.
- Eis a medida, disse depois, apresentando-a à concunha-da. Desculpa-me
pela demora; é que me custou encontrar uma bem grande.
A mulher de Alí-Babá voltou correndo para casa. Rápida e resoluta pôs-se
a medir as moedas de ouro passando para o marido os montes já medidos.
Este ia fazendo o trabalho de enterrá-los:
- Duzentas medidas! Temos duzentas medidas de moedas de ouro!
Gritou por fim a mulher.
- Cem são nossas. As outras cem eu darei a Cassim, disse Ali-Babá.
- Acho justo, respondeu a mulher. Poderemos comprar um rebanho com
as nossas...
- E ficaremos ricos em pouco tempo! completou contente Ali-Babá.
Terminado o serviço, a mulher foi devolver a vasilha de medir. Na pressa,
porém, não notara um importante detalhe:
A cera no fundo da vazília.
A mulher de Cassim, ao ver a moeda de ouro, ficou com muita inveja e
assim que o marido chegou, contou-lhe tudo.

Mal o dia raiou, Cassim correu à casa de Ali-Babá.
- Irmão, gritou sem mais rodeios, és rico e te finges de pobre! Tens
ouro aos montes e te fazes de mendigo!
- Que dizes tu? perguntou, Ali-Babá. Não te entendo! Queres te
explicar?
- Não te faças de desentendido! gritou Cassim. E, mostrando-lhe a
moeda, continuou:
- É tua! Quero saber agora quantas moedas iguais a esta tens para medi-
las com a maior vasilha de medir cevada!
Imediatamente Ali-Babá percebeu que a mulher de Cassim descobrira seu
segredo. Agora, restava-lhe contar a verdade.
- Preferia estudar antes um jeito de conseguir auxílio do Sultão para
exterminar os ladrões e só depois te relatar o ocorrido. Desejava poupar-te
aos perigos que correrei. Não tenho, porém, outro remédio senão te contar
minha aventura.
E Ali-Babá contou a Cassim todos os detalhes do que lhe acontecera.
Terminou por desenterrar as moedas, repartindo-as com o irmão.
- Transporta-as à noite, aconselhou por fim. Não devemos permitir que
aqueles bandidos saibam que lhes conhecemos o segredo. Bem sabes como
os boatos e as notícias correm. Evitemos pois os comentários, por enquanto.
- Concordo, contigo, respondeu Cassim. Mas só guardarei segredo se
me explicares exatamente onde fica a gruta e como poderei lá entrar. Do
contrário espalharei pela cidade a aventura que tiveste.
Ali-Babá não teve outro remédio. Temendo mais pela vida de sua
família do que pela sua própria, preservaria a todo o custo o seu segredo.
- Vou contar-te todos os detalhes, irmão, disse ele. Mas cuidado! Não
vás arriscar tua vida por cobiça. Espere até que
consigamos ajuda do sultão.


CAPÍTULO 3
A COBIÇA DE CASSIM
assim voltou para casa resolvido a ir em busca do tesouro dos ladrões. Nem
à mulher, porém contou seu plano. Carregou dez burros com enormes cestos e
partiu sozinho no dia seguinte:
- Nestes cestos trarei o maior número possível de moedas e jóias! Serei o
homem mais rico da cidade - pensava ele seguindo o caminho indicado por Ali-
Babá.

Não tinha o que errar. Em poucas horas avistou o rochedo e, perto dele,
pôde reconhecer a árvore em que seu irmão se ocultara dos ladrões.
- Onde ficará a tal pedra que serve de porta? pensou então.
Era difícil descobri-la. Na rocha, várias pedras se sobressaíam, mas
nenhuma delas se assemelhava a uma porta.
- Abre-te Sésamo, gritou Cassim a esmo, com a voz mais forte que
conseguiu.
No mesmo instante, bem à sua frente, uma pedra moveu-se e eis que a
porta se abriu. Cassim entrou por ela.
- Que maravilha! murmurou ele estacando diante de tantas riquezas.
Ali-Babá foi lacónico comigo! Há aqui mais preciosidades do que as que ele
me descreveu... Estou milionário!
Tão avarento e cobiçoso era que, à vista de tanto ouro, quase se esqueceu
de que viera para o roubar. Ficaria o dia todo a mergulhar as mãos nas
caixas de jóias e nos sacos de moedas! Chegou a entrar num tacho cheio de
ouro em pó, saindo dele salpicado daquela preciosa poeira. Devia no entanto
encher os cestos que trouxera no lombo de seus burros.
Amontoou pois as riquezas que deveria levar. Depois, virando-se para a
porta, levou a mão à testa:
- Abre-te...
Céus! Fugira-lhe a palavra!
Cassim não conseguia se lembrar da palavra mágica que abria a porta da
gruta.
- Abre-te Sénamo! gritou. Nada. A porta nem se moveu.
- Abre-te Sélano! berrou já meio aflito. Em vão. Cassim, cada vez mais
assustado, esforçava-se em vão. O suor já lhe corria pelas faces, enquanto
ele gritava.
- Abre-te Zéssano! Téssano! Abre-te!
pelo o amor de Deus!...

Como um louco, pôs-se a pronunciar quantas palavras lhe ocorriam. E
cada vez mais se embaraçava. Perdido entre as riquezas, a andar por entre
elas e até pisando em algumas, Cassim estava fora de si. O ouro e as jóias já
não o fascinavam. Seu brilho ofuscava-lhe os olhos e os sacos de ouro fa-
ziam-no tropeçar, enquanto corria de um lado para o outro.
- Oh Céus! Estou perdido! gritava ele. Abre-te Sétimo! Pelo amor de
Deus, abre-te pedra!
O pavor de Cassim não era infundado. Não tardou que os ladrões,
voltando de um assalto noturno, se aproximassem da gruta. Imediatamente
viram os burros de Cassim, prontos para serem carregados. Avançaram, a
galope.
- Terão descoberto nosso esconderijo? perguntavam-se entre si.
Com gritos e chicotadas dispersaram os animais de Cassim; não se
interessavam por eles. O que queriam era descobrir quem os trouxera e os
deixara ali, à porta de seu esconderijo.
- Cerquem o rochedo! gritou o chefe, indicando alguns homens.
Imediatamente alguns dos bandidos se destacaram do grupo, circundando
a rocha e mal contendo os cavalos impacientes.
- Desmontem agora os restantes! Entremos na caverna! De alfanjes nas
mãos, ameaçadores e raivosos os ladrões acercaram-se da pedra movediça.
- Abre-te Sésamo! gritou então o chefe. A porta abriu-se.
Cassim no entanto, de dentro da gruta, ouvia tudo o que se passava lá
fora.
- Estou perdido, não há dúvida! Soou minha hora final! Oh! Céus!
Porque fui invejoso e ambicioso? disse ele em voz alta, no instante em que,
girando sobre si mesma, a pedra se abria.

Os ladrões avançaram. Cassim viu o bando de facínoras, armados e aos
gritos, irromperem na gruta contra ele. Não teve dúvidas - num ímpeto
arremeteu contra o grupo, desarmado mas resoluto. Ágil derrubou em
seguida o chefe dos ladrões, com um valente pontapé no estômago. Os
ladrões, que eram muitos, não esperavam por essa reação. Antes que
dessem pela coisa, Cassim já montara em um dos seus cavalos e fugia, a
galope.
Tonto ainda, o chefe ergueu-se do chão.
- Persigam-no! gritou; Yusuf! Cabal! Naim! Tragam-no de volta!
Os três homens designados montaram às pressas e saíram no encalço do
intruso. Os restantes cuidaram de repor nos devidos lugares as riquezas que
Cassim amontoara disposto a levar dali. Nem sentiram falta, no entanto, das
moedas que Ali-Babá tirara antes. Estas eram uma gota d'água no oceano de
seus tesouros.
- Não me importa saber por que este homem não saiu da gruta antes que
chegássemos. Quero é saber como entrou! disse o chefe dos bandidos, ainda
estonteado pelo tombo.
- Talvez tenha descido pela abertura superior, conjecturou um dos
ladrões.
- Impossível! respondeu outro. Nem nosso chefe, que é tão ágil e forte,
consegue escalar o rochedo.
- Será mágico? indagou outro.
- Seja o que for, quero a sua cabeça, disse o chefe ferozmente.
Os bandidos julgavam-se os únicos donos do segredo da porta. Aquele
intruso, no entanto, viera abalar-lhes a segurança e tranquilidade.
- Nosso tesouro corre perigo, comentaram.
- E nossas vidas também.
- Pois então fechemos a gruta e desapareçamos das ré dondezas por uns
tempos, resolveram.

- Esperemos no entanto que nossos homens voltem com
aquele atrevido!
Pouco depois regressaram Cabal, Yusuf e Naim.
- A cabeça! Dêem-me a cabeça do homem, gritou-lhes o
chefe mal os viu chegar.
- Perdão, senhor gritaram eles em coro. O homem deve
ter asas! Encontramos o cavalo, que já vinha de volta. Do
homem, porém, nem sombra vimos!
- Miseráveis! Falharam, deixando-nos em perigo berrou
furioso o chefe.
E só depois de açoitar os três perseguidores de Cassim é
que resolveu afastar-se da caverna.
Todos a cavalo, fecharam a gruta e foram para uma estrada longínqua,
dispostos a atacar as caravanas, como de costume.
Antes, no entanto, tomaram suas precauções. Um dos
bandidos foi incumbido de postar-se à saída do bosque, na estrada que dava
para a cidade. Como Cassim se internara na mata, forçosamente passaria pelo
vigia, caso quisesse voltar ao seu lar. Seria então agarrado e levado à gruta,
onde,
mais tarde, os ladrões o matariam.
- Não deixe sair ninguém do bosque; quero esse homem
custe o que custar.
Estas foram as últimas palavras do chefe dos bandidos ao
ladrão que escalara como vigia.
Outro ladrão ficou incumbido de indagar pela cidade e
descobrir de que casa alguém sumira. Dessa forma, mesmo que mais tarde,
com uma grande astúcia, o invasor da gruta lhes pudesse escapar, não fugiria
às suas garras.
Enquanto isso, em casa de Cassim, sua mulher estava preocupadíssima.
Descera a noite e nada do marido! De madrugada, não se contendo, foi à
casa de Ali-Babá.

- Cunhado, disse depois de acordá-lo, teu irmão foi ao bosque hoje
cedo e ainda não voltou. Temo que lhe tenha acontecido alguma desgraça.
- Ele foi à caverna dos ladrões! Na certa vem carregado de riquezas e
espera a madrugada para voltar sem atrair atenções!
- Tem razão, Ali-Babá! exclamou a mulher, já feliz por pensar nos
tesouros que o marido traria.
Com essa esperança voltou ela para casa e aguardou pacientemente que
soassem no pátio os passos do marido, e a segui-lo, os cascos dos
burrinhos carregados.
Mas os clarões da manhã começaram a tingir o horizonte e nada de
Cassim.
- Se ele esperava as sombras da noite para se esconder, como não veio
se um novo dia raia? Pobre marido meu!
Como louca, a mulher de Cassim pôs-se a chorar, certa de que algo de
mal se passara no bosque.
- Céus! chorava ela, não fora minha cobiça nada disso aconteceria!
Porque invejei eu Ali-Babá?! Sempre tive tudo o que quis! No entanto, mal
vi um punhado de ouro alheio e já o desejo de possuí-lo veio me arruinar!
Nem ao menos aconselhei meu marido a ser grato ao irmão que repartiu
com ele sua fortuna!...
Mal o dia clareou, a mulher de Cassim foi ter de novo com Ali-Babá.
Este, ao vê-la, perguntou.
- Então, minha cunhada, que trouxe de bom o meu irmão?... Está
satisfei...
Interrompeu-se no meio da pergunta vendo os olhos vermelhos da
mulher, as faces inchadas e as lágrimas que lhes escorriam pelo rosto.
Compreendeu imediatamente o que se passava. Aliás, mesmo que a
cunhada quisesse falar, explicando sua dor, não poderia, pois os soluços
lhe embargavam a voz.

- Sossega, disse-lhe então Ali-Babá. Vou em busca de meu irmão.
Imediatamente Ali-Babá arreou seus três burricos e partiu para o bosque.
Para não chamar a atenção dos vizinhos tomou de um atalho e, entrando
por ele, não passou pelo vigia que ficara na entrada do bosque.
Ao aproximar-se do rochedo, viu um dos burros de seu irmão pastando
com os cestos vazios às costas. Mais adiante viu outro. Aos poucos foi-se
alarmando.
- Pobre irmão! Terá sido apanhado por aqueles bandidos? Resoluto,
aproximou-se da porta de pedra e gritou:
- Abre-te Sésamo!
A porta abriu-se ruidosamente e Ali-Babá entrou na gruta pela segunda
vez.
- O barrete de meu irmão! exclamou à entrada, levantando do chão o
barrete vermelho de Cassim. Adiante um sapato de bico recurvo chamou-lhe
a atenção.
- O sapato de Cassim! Reconheço-o perfeitamente! Não resta dúvida de
que meu irmão aqui esteve e saiu às pressas deixando cair até peças de seu
traje.
Além do sapato e do barrete, Ali-Babá viu um alfanje quebrado e vários
outros sinais de violência.
- Meu irmão lutou pela vida, não há dúvida. Que será que lhe
aconteceu?
Enquanto pensava tais coisas, Ali-Babá tratou de encher de ouro uns
sacos; depois saiu da gruta e gritou:
- Fecha-te Sésamo.
Escondeu os sacos de ouro sob umas toras de lenha que cortou e seguiu para
a cidade, sempre pelo atalho e pensando:
- Se os ladrões tivessem agarrado Cassim tê-lo-iam enforcado numa
árvore próxima e eu acharia o cadáver. Bem conheço as leis desses
facínoras. Nunca perdem tempo em enterrar os inimigos. Nem fazem
prisioneiros inúteis que


custam alimentos e acomodações. Sendo assim, estou certo de que meu
irmão fugiu. Talvez o tenham perseguido... Que faria alguém em seu
lugar?
- Procuraria abrigo no bosque...
Ali-Babá tranquilizou-se. Suas conjeturas o fizeram certo de que o
irmão estava a salvo, se bem que escondido no bosque.
Rumou para casa e lá chegando enterrou o ouro auxiliado por sua
mulher. Enquanto faziam juntos tal serviço contou-lhe o que acontecera ao
irmão.
- Deus o proteja! exclamou a mulher de Ali-Babá que, mesmo sabendo
dos maus sentimentos do cunhado, nunca lhe desejara mal.
Ali-Babá então saiu em busca da cunhada, indo bater-lhe à porta.

CAPÍTULO 4
A ASTÚCIA DA ESCRAVA
Morjiana era escrava de Cassim. Fora-lhe vendida por um rico mercador
que por sua vez, comprara-a de um xeque. Era jovem e maravilhosamente
bela. Além disso, tinha uma inteligência brilhante, sendo capaz de inventar
saídas para as maiores dificuldades. Bem tratada pêlos atuais senhores a eles
se afeiçoara a ponto de tratá-los com o carinho e a dedicação de uma
verdadeira filha.
Ao chegar à casa de Cassim, Ali-Babá foi recebido por Morjiana.
- Que notícias trazes de meu amo, senhor? indagou ela aflita, pois
percebera que acontecia alguma coisa de errado na casa.
- Morjiana, respondeu-lhe Ali-Babá, em primeiro lugar promete-me que
guardarás segredo do que te vou contar.
Depois de obter a promessa do silêncio da escrava, Ali-Babá contou-lhe
com todos os detalhes o que se passara.
- Quero o teu auxílio, terminou por dizer. Precisamos evitar que seja
notada na cidade a falta de meu irmão. Só assim os bandidos não
desconfiarão de nossa família e não nos exterminarão.
- Deixe por minha conta, senhor, respondeu Morjiana. Darei um jeito de
que ninguém desconfie do ocorrido. Nesse instante aproximou-se a mulher
de Cassim, aflita:
- E então, cunhado? Que notícias tens para me dar? indagou,
impaciente. Ah! vejo por teu semblante que nada de bom devo esperar!
- Acalma-te, mulher! Não tenho notícias nem boas nem más! Mas,
tenha coragem...
- Coragem? gritou a mulher; já sei: estou viúva!
- Cala-te! Quem te disse que teu marido morreu? respondeu Ali-Babá.
E então tornou a contar o que já relatara a Morjiana. E terminou por
dizer:
- Morjiana dará um jeito de disfarçar o que aconteceu. Confiemos
nela.
- Sim, disse esta. Creio que nosso primeiro passo será justamente o de
fazer crer que meu amo morreu. Iremos morar por uns tempos com Ali-
Babá até que este possa dar cabo dos ladrões ou denunciá-los sem risco.
Ali-Babá e a cunhada concordaram imediatamente com a escrava. Esta,
por sua vez, prometeu a maior cautela e astúcia no que iria fazer.
Saindo ao mesmo tempo que Ali-Babá, Morjiana foi até à casa de um
droguista e pediu-lhe umas gotas para febre.
- Quem tem febre em tua casa? perguntou o homem.
- Ah! Senhor, respondeu Morjiana, é meu querido amo Cassim que
está doente. Arde em febre, não fala nem come...
Morjiana levou as gotas para casa e despejou-as num tanque. No dia
seguinte voltou à casa do droguista e pediu:
- Por favor, arranja-me umas pílulas contra dor!
- Ontem era febre, hoje dor; que tem o teu amo, afinal? perguntou o
homem.
- Ai de nós! Antes soubéssemos! Meu amo, além da febre, geme agora
sem parar, como quem sofre de dores terríveis. Nem sei se essas pílulas
surtirão efeito!
Além dessas compras de remédio, Ali-Babá e a mulher cumpriam outra
parte do plano. Mais de uma vez por dia iam à casa de Cassim e cada vez
saíam de lá com expressão mais pesarosa.
- O mercador Cassim anda muito doente, comentavam na cidade.
- E parece que não escapa...
Certa noite ouviu-se um grito na casa de Cassim, seguido pelo pranto das
mulheres. Principalmente Morjiana e a patroa choravam como loucas.
Ninguém se admirou. Cassim morrera, mas esta morte já era esperada por
todos.
Mas o que ninguém viu foi Morjiana sair de casa, embrulhada num manto
negro, e ir ao ponto mais distante e isolado da cidade. Ia à procura de Baba
Mustafá, oleiro e escultor exímio, apesar de muito idoso.
- Baba Mustafá, tenho um serviço para você, disse sem se descobrir.
- A estas horas? indagou ele. Espere até amanhã. A escrava, no entanto,
mostrou-lhe uma moeda de ouro, colocando-a depois na mão do velho.
- Bem, bem, disse este mudando de tom, estou às suas ordens. De que se
trata?
- Baba Mustafá, disse Morjiana, tereis cem moedas iguais a estas. Para
isso no entanto deveis me obedecer sem fazer perguntas.
- Ah! isso não! respondeu o escultor; certamente queres que eu te
auxilie em alguma coisa contrária aos princípios de um homem de bem!
Morjiana então, deu-lhe outra moeda, explicando:
- Não vos assusteis. Não vos pedirei nada que vos desonre. Irei apenas
ajudar a um amigo. Acompanhai-me e não temais. Peço-vos no entanto que
deixeis vendar vossos olhos.
Ainda um pouco desconfiado, mas curioso e crendo nas palavras da
moça, Baba Mustafá deixou-se vendar.
Morjiana guiou-o então e só o desvendou quando se achava num
aposento reservado na casa de Cassim.
- Que devo fazer agora? indagou o velho.
- Faze um boneco com essa argila que aí está, disse a escrava.
- Um boneco? indagou o escultor admirado.
- Sim. Quero um boneco, do tamanho de um homem.
- E para que o queres?
- Nada de perguntas, Mustafá... Eis outra moeda! À luz de um candeeiro,
o velho pôs-se a trabalhar. Era
hábil. Em poucas horas fez um boneco perfeito, em tudo
semelhante a um homem.
- Pronto! disse por fim, eis o teu homem de barro.
- Ó timo, respondeu a jovem dando-lhe um saco com as moedas de ouro
prometidas.
O velho foi novamente vendado e Morjiana reconduziu-o à sua oficina.
De volta para casa a escrava vestiu o boneco com um rico traje, pôs-lhe
barbas postiças e colocou-o sobre a cama de Cassim. Não se esqueceu
porém de cobrir-lhe o rosto com um fino véu.
No dia seguinte, vindo para o enterro, o próprio Ali-Babá assustou-se:
- Então meu irmão morrera, realmente?
- Não se assuste, segredou-lhe a mulher. Isto é obra de Morjiana.
O próprio Ali-Babá colocou o corpo do irmão num lindo ataúde que
Morjiana encomendara. E o enterro foi concorri-díssimo pois Cassim era
homem rico e influente na cidade.
Desse modo, só Ali-Babá, sua mulher, sua cunhada e Morjiana, ficaram
sabendo que o morto continuava vivo, escondido na floresta.
Ninguém estranhou que Ali-Babá, sua mulher e filhos se mudassem para
uma bela casa, onde passaram a viver com a mulher de Cassim, que lhe
herdara todos os bens.
O que ninguém sabia, porém, era que o próprio Ali-Babá estava rico e
que o verdadeiro palácio que comprara era dele e só dele. Até seus filhos
julgavam dever tudo à tia
viúva que eles não sabiam explicar! - se tornara meiga e agradável
depois da morte do marido.
Os sacos de ouro foram desenterrados da velha casa de Ali-Babá e com
uma pequena parte dele Ali-Babá reformou a loja deixada pelo irmão. Essa
loja foi dada ao filho mais velho do casal, chamado Amed.
- Se cuidares bem da loja, filho, disse-lhe Ali-Babá, prometo-te que te
casarei vantajosamente.
O rapaz alegrou-se pois tendo sido aprendiz na loja do tio, iria mostrar
agora suas aptidões.
Ali-Babá, no entanto, só tinha uma preocupação - capturar os bandidos
e trazer seu irmão de volta para o lar.
Passado alguns dias, Ali-babá voltou à caverna.
- Que é isso? indagou o chefe.
É que ele dera por falta dos sacos de ouro levados por Ali-Babá em sua
última visita à gruta.
- O homem voltou à gruta e voltará outras vezes. Vai levar nossos
tesouros e talvez traga a guarda do Sultão para liquidar-nos!
- Precisamos descobrir seu paradeiro! gritou um dos ladrões.
- Estudemos um plano para agarrá-lo, disse outro.
- Um prémio para quem agarrar o homem! gritou o chefe. Quem o
agarrar será nomeado por mím, meu substituto e subchefe de todos vós!
- Urra! gritaram todos. Abandonemos todas as nossas atividades!
Morte ao homem que conhece o segredo defendido por nós e por nossos
avós!
Vendo o entusiasmo geral, o chefe dos ladrões continuou:
- Conheço a vossa coragem, mas é hora de pô-la à prova. Um de vós
irá à cidade, disfarçado e sem armas. Como estrangeiro mais fácil será
fazer indagações sem levantar suspeitas. Empregará então todos os meios
para descobrir se alguém fala do desaparecimento de alguém, nem que seja
por poucos dias.
- Boa ideia, gritaram alguns bandidos!
- Depois é saber onde mora e então agiremos! o importante, porém, é
que não suspeitem de qualquer de nós nem da nossa proximidade, disse o
chefe.
- Descoberto o homem nós o exterminaremos junto com a família pois
deve ter comentado em casa a sua súbita fortuna! propôs um homem feroz,
de barba vermelha e crespa.
- Mas imponho minha lei, o homem que for à cidade e não lograr
sucesso não será apenas castigado como foram esses que falharam em
minhas ordens anteriores - será enforcado!
Um longo silêncio acolheu tais palavras. Mas logo um dos ladrões
adiantou-se, dizendo:
- Submeto-me à pena de morte Quero para mim esta missão! Se eu não
me sair bem não será por falta de dedicação a vós todos e ao meu chefe!
- Que sejas o escolhido, então, disse-lhe o chefe fazendo-lhe depois
grandes elogios à coragem e dedicação.
O disfarce do ladrão enganaria a qualquer um. Não só aparou a barba como
também as sobrancelhas que lhe davam um ar feroz por serem verdadeiros
bigodes sobre os olhos. Vestiu depois um traje muito simples, escuro e limpo,
tirou os brincos de argolas e enrolou na cabeça um turbante branco. Assim
vestido parecia um simples mercador,
honesto e tímido.
Separando-se do grupo, partiu durante a noite. Ao raiar do dia estava na
cidade. Como trouxera dinheiro, pôs-se a fazer compras, dizendo-se mercador
em busca de provisões e mercadorias. Aproveitava cada compra que fazia para
conversar e fazer indagações. Soube da morte de Cassim mas de nada
desconfiou, pois lhe narraram também a doença e o enterro luxuoso que
tivera.
Já desanimava quando, nos arrabaldes da cidade, entrou
numa loja de oleiro e escultor.
- Quanto quer por este jarrão de cerâmica, meu senhor?
Dirigia-se ao dono da loja, que outro não era senão Baba
Mustafá.
Este, largando o trabalho de que se ocupava veio atendê-lo, respondendo:
- Este jarrão custa dez moedas de prata, forasteiro.
- Que absurdo! respondeu o ladrão que era avarento e
já estava farto de fazer compras.
- Pois saiba que não é caro! Meus trabalhos valem ouro! Não faz muito
tempo vendi um boneco de barro por cem moedas de ouro! respondeu o
velho, vaidoso.
- Cem moedas de ouro por um boneco de barro! Que absurdo me contas,
velho? Quem daria tanto dinheiro por
algo tão sem valor?
O ladrão estava admirado. E mais interessado ficou quando
o velho disse:
- Fiz um boneco deitado, igualzinho a um homem. Não
sei para que o queriam pois fizeram muito mistério com a encomenda. Só sei
que até fiquei meio nervoso pois meu boneco acabou por assemelhar-se a um
defunto!...
O ladrão animava-se. Não estaria ali o fio da meada que
buscava? Continuou pois a conversa:
- Para quem fizeste tal boneco? Quando o fizeste? para
onde o levaste?
- Devagar! interrompeu Mustafá. Queres que eu fale,
não há dúvida... Mas não gosto de espalhar segredos alheios... O bandido
estava certo de que achara sua pista. Desembolsou pois uma moeda de ouro e,
exibindo-a ao velho,
pediu:
- Bom homem, não me interessam teus segredos! Mas
sou louco por arte! Dar-te-ei dez moedas dessas se puder ver
teu boneco.
- Ah! se gostas de arte és meu amigo! Mas, infelizmente,
ainda que quisesse, não poderia te satisfazer.
- E por quê? perguntou o ladrão já impaciente.
- É que a pessoa que me encomendou o trabalho veio embuçada e me levou
vendado ao lugar do trabalho. Como
vês, não posso te ajudar.
Não havia dúvida! Alguém encomendara um falso defunto para encobrir um
desaparecido.
- Tentemos, bom velho. Vendarei teus olhos e procurarás seguir as direções
que tomaste nesse dia ou nessa noite.
Tentemos!
Assim dizendo o bandido despejou um saquinho de ouro
sobre a mesa de trabalho de Baba Mustafá.
Então foram os dois. Passado algum tempo, encontraram a casa de
Ali-babá.
Sem desvendar Mustafá, furtivamente o ladrão tez um sinal a giz na porta
da casa. Depois desvendou seu guia, dizendo:
- Como é muito cedo, deixarei para mais tarde minha visita aos
moradores. Não os quero incomodar agora pedindo para ver sua obra de arte.
Vai pois para teu serviço, bom velho, e muito obrigado.
Assim dizendo colocou na mão do velho várias moedas de ouro. Este foi-se,
radiante.
O ladrão, por sua vez, nem indagou de quem era a casa. Rumou para o bosque,
certo de que cumprira maravilhosamente bem sua missão.
Poucos momentos depois, porém, Morjiana, que agora era serva de Ali-Babá
pois viera morar também com ele, saiu de casa. Ia fazer compras no mercado da
cidade. Notou imediatamente o sinal branco que o ladrão fizera na porta.
- Quem terá marcado nossa porta? pensou. Quererão prejudicar meu amo? Ou
será uma brincadeira de mau gosto? De qualquer modo não vou deixar isso assim.
E a inteligente moça, voltando ao interior da casa, arranjou um giz. De volta à
rua, marcou várias portas da rua com o mesmo sinal que o ladrão fizera.
E, como nesse abastado bairro os palacetes muito se assemelhavam na
arquitetura e decoração, ninguém seria capaz de distinguir qual a porta
marcada pelo ladrão.
- Assim, pensou Morjiana, se for cilada livramo-nos dela;
e se for brincadeira, brinco eu também um pouco!...
E a valiosa escrava, sobraçando seus cestos de compras, lá se foi para o
mercado, de alma leve e coração contente.
CAPÍTULO 5
ALI-BABÁ É DESCOBERTO
e volta ao esconderijo no bosque, o ladrão não cabia em si de alegria. Com
sua astúcia fizera o que todos julgavam difícil e até impossível. Teria seu posto
de honra logo abaixo do chefe!
Ao relatar o que se passara na cidade, foi felicitado e abraçado por todos.
- Bravos, rapaz! Tua astúcia nos salvou, disse o chefe apertando-lhe a
mão. Agora, não percamos tempo. Partamos já, bem armados, mas todos
disfarçados. Não entremos juntos na cidade.
- Exatamente, disse o ladrão que já se julgava subchefe. Não devemos
chamar as atenções!
- Devemos nos reunir na praça central. Antes irei com esse valente
companheiro reconhecer a casa assinalada e saber quem lá mora.
Todos concordaram e trataram depois de seus disfarces. Um vestiu-se de
mendigo, enfaixando uma perna, tomando de uma muleta e vestindo
andrajos. Outro vestiu-se de soldado. Outro de faquir e assim por diante,
cada homem transformou-se, deixando de ser um bandido mal encarado
para transformar-se em um simples e anónimo cidadão.
O chefe vestiu-se de mercador e, com o autor da marca na porta de Ali-
Babá, foi o primeiro a se dirigir à cidade.
Foram diretamente à rua onde se localizava a casa de Ali-Babá. Na
primeira porta marcada a giz, estacaram:
- Ei-la, senhor! murmurou o ladrão ao chefe, é esta a casa, Aqui está a
marca que fiz!
Mas eís que, olhando em torno, o chefe percebeu as outras portas
marcadas.
- Mas vejo sinal idêntico em muitas outras casas! murmurou o chefe,
admirado.
Olhando em torno, confuso, o ladrão, que se julgara tão esperto, não
sabia explicar aquele fracasso.
- Juro que só marquei uma porta, chefe! Não sei quem terá feito essas
outras marcas.
Furioso, o chefe nem lhe respondeu. Dirigiu-se à praça onde marcara
encontro com os demais bandidos e, disfarçadamente, foi avisando um por
um do malogro de seus planos.
Para não chamar a atenção dos moradores da cidade rumaram separados
para a gruta, onde se recolheram ao esconderijo.
- Morte ao fracassado! gritaram lá chegando. E o infeliz bandido que
não cumprira a promessa de achar o inimigo da quadrilha foi executado.
- Preciso escolher outro homem para a missão de reconhecimento, disse
depois o chefe dos ladrões. Dessa vez, tirarei a sorte para ver qual de vós irá.
- Proponho que não se tire a sorte, disse um dos bandidos, adiantando-
se.
Era um homem atarracado e forte, de olhos de falcão e nariz adunco.
- Como faremos então? indagaram os outros.
- Proponho que me deixem ir!... disse o homem de cara de ave de rapina.
- Aceito a oferta! respondeu o chefe. Previno-te no entanto de que, caso
fracasses, terás o mesmo fim desse homem que te precedeu. Mas se lograres
êxito, manterei minha promessa anterior e te farei subchefe.
O bandido apressou-se em iniciar sua busca. Teve mais facilidade que o
primeiro pois foi diretamente à Loja de Baba Mustafá.
- Senhor, disse lá chegando, disfarçado em mercador, um amigo meu
contou-me ter visto um maravilhoso boneco feito por suas mãos. Gostaria
imensamente de poder apreciá-lo também pois justamente mercadejo com
obras de arte. Esse amigo me disse o seu nome mas esqueceu-se de dar-me o
endereço do feliz comprador de tão belo trabalho!...
- Muito me honra vosso interesse, disse Mustafá lisonjeado.
E, depois de vender ao suposto mercador por preço elevadíssimo umas
peças de cerâmica, concordou em servir-lhe
de guia, como ao primeiro bandido. Para isso muito concorreram as moedas de
ouro que lhe foram oferecidas.
- Como me rende ainda o boneco de barro... pensava ele enquanto guiava o
ladrão até à porta de Ali-Babá. Lá chegando, estacaram.
- Eis a casa que buscais, disse o velho, então. Despedindo Mustafá, sem
mais perguntas para que ele não desconfiasse de suas intenções, o ladrão marcou
a casa como já fizera o seu companheiro. Dessa vez, porém fez um sinal
vermelho, num lugar que julgou bem oculto de olhos curiosos.
Regressou em seguida ao esconderijo no bosque. Morjiana, no entanto, que
vigiava agora a casa com mais precauções que antes, ao sair para as compras
desse dia, olhou demoradamente a fachada do prédio. Esperta como era, não
tardou a encontrar o sinal vermelho feito pelo ladrão.
- Não há dúvida de que desejam marcar a casa, disse consigo mesma.
E, como na véspera, tratou de copiar o estranho sinal nas casas vizinhas, na
mesma posição em que estava desenhado na sua. Depois, tranquilamente,
rumou para o mercado.
Quanto ao ladrão, chegando na gruta, declarou:
- Com as precauções que tomei, garanto que, dessa vez, não confundiremos
a casa com as vizinhas.
- Dessa vez iremos disfarçados mas muito bem armados. Assim
imediatamente daremos cabo de nossa vingança! disse o chefe.
E, como no plano anterior, marcou encontro com os demais bandidos na
praça da cidade.
Como na véspera, o chefe e o voluntário foram direta-mente à rua em que
morava Ali-Babá.
- Raios! exclamaram ambos ao constatarem que alguém
os confundira novamente.
É que, em várias casas, encontraram o sinal vermelho de
Morjiana.
Enfurecido, o chefe dos ladrões regressou ao bosque, depois de avisar aos
companheiros do novo fracasso. E lá, sem ouvir os rogos do bandido
fracassado, executou-o também.
- Temos menos dois homens, comentou depois. Como vêem nosso
inimigo, sem mostrar-se, já nos causa sérios prejuízos. Não podemos deixar
que fique à solta. Alguém mais
quer ir em busca dele?
Dessa vez, porém, os homens, amedrontados, não se mexeram. Ninguém
ousava se arriscar na missão que já causara duas mortes entre eles.
- Pois irei eu próprio! gritou o chefe, raivoso. Se tenho apenas covardes
em torno de mim, mostrarei que valho por
mais de trinta homens!
Mal terminara de pronunciar essas palavras montou seu
cavalo negro e partiu.
Foi diretamente à loja de Baba Mustafá e, mediante nova oferta em ouro,
fez-se conduzir à casa de Ali-Babá. Mas não a marcou, como seus
antecessores. Limitou-se a gravar-lhe a posição, e a decorar o número de
casas que lhe ficavam à direita e à esquerda. Não a confundiria jamais.
Depois indo a uma loja próxima, indagou o nome de seu dono.
Satisfeito, regressou ao esconderijo com um sorriso de triunfo a lhe
iluminar o semblante rude.
- Amigos, gritou para os ladrões, nada mais impede nosso plano de
vingança! Ali-Babá é o nome do homem que buscamos! Gravei bem a casa
em que mora e poderemos liquidar com ele e toda a sua família. Depois a
tranquilidade voltará ao nosso bando! Ele é o único homem a saber de

nosso segredo pois duvido que o tenha contado a alguém. Planejei o que
faremos. Resta saber se alguém não concorda com meu plano...
É claro que ninguém discordaria do chefe! Ele, então, vendo que suas
palavras eram bem acolhidas, explicou minuciosamente o seu plano.
E os ladrões trataram de obedecer às suas ordens, certos que, dessa vez,
Ali-Babá não lhes escaparia.
No outro dia, foram todos à cidade.
Outros compraram trinta e oito barris dos que servem para guardar óleo.
Escolheram dos maiores que haviam na cidade.
- Querem também o azeite? indagou o comerciante que os vendia.
- Não, obrigado, responderam os ladrões. Vamos buscar óleo em outra
cidade e preferimos os barris vazios.
- É pena, disse o vendedor; meu azeite é o melhor de toda a região...
- Então dê-nos um barril cheio, para que o experimentemos.
O rumo da conversa facilitara a missão dos bandidos pois o chefe
ordenara que um dos barris viesse cheio de óleo.
De volta à gruta com as compras, iniciaram a execução do plano.
Nos barris vazios foram feitos pequenos e disfarçados furos. Depois, dois
a dois, os barris foram pendurados nos lombos dos burros.
- Tomem seus postos! ordenou o chefe, então. E não se esqueçam das
armas!
Imediatamente cada bandido, armado de faca e punhal, escondeu-se
dentro de um barril. Vendo todos os homens ocultos, o chefe fechou-os com
tampas de madeira mal presas com cera mole. Seria muito fácil levantá-las,
por dentro.
Como última precaução os barris foram untados com óleo.
- Ninguém dirá que não contêm azeite, gritou o chefe.
Dentro dos barris os bandidos sorriram, com expressão feroz.
Tudo pronto, o chefe rumou para a cidade, tangendo os burros que
transportavam os ladrões e mais o único barril realmente cheio de óleo.
Lá chegou ao cair da tarde. Dirigiu-se diretamente para a casa de Ali-
Babá. Nem precisou bater à porta pois o ex-le-nhador jantara bem e viera
respirar o ar fresco da noite.
Encostado ao umbral de sua porta, saudou aquele mercador de azeite que se
aproximava.
Este, parando os burros, respondeu-lhe à saudação e disse:
- Trago de longe esse óleo e pretendo vendê-lo amanhã no mercado.
Nunca vim a esta cidade e não sei onde pousar. Não quero vos importunar,
senhor. Quem sabe, no entanto, se me dareis hospedagem? Saberei ser grato
a vosso bom coração.
Como poderia Ali-Babá desconfiar de um simples mercador que tão
humildemente lhe pedia pouso? Como reconheceria nele o chefe dos
bandidos se ele se disfarçara tão bem? Completamente iludido, respondeu:
- Bem-vindo seja à casa de Ali-Babá, forasteiro!...
As portas do pátio foram abertas e o bandido, radiante, fez entrarem por
ela seus animais.
Ali-Babá ordenou que os burros fossem descarregados e levados à
estrebaria, onde um servo lhes deu de comer feno e cevada.
Depois, chamando Morjiana, dise-lhe:

- Prepara uma ceia para o hóspede e depois arrume-lhe um bom leito,
para que repouse de sua longa jornada.
- Não se preocupe comigo, disse o chefe dos ladrões que ouvia as
ordens. Estou acostumado a dormir ao relento.
O que contava, porém, era dormir no pátio de onde lhe seria mais fácil
chefiar o assalto à casa que o hospedava.
- Absolutamente! replicou Ali-Babá. Não consentirei que um hóspede
meu fique mal acomodado.
Para não causar desconfiança, o bandido foi obrigado a aceitar os
oferecimentos e as gentilezas de Ali-Babá. E até não foi sem grande prazer
que saboreou a deliciosa ceia que Morjiana lhe serviu.
Vendo-o comer com tanto gosto e apetite, Ali-Babá declarou:
- Pedi tudo o que quiserdes pois minha casa é vossa.


- Senhor, respondeu o bandido, há muito tempo não recebo tão boa
acolhida e nem vejo casa tão farta quanto a vossa. Gostaria de ter notícias de
vossa família. Tendes muitos
parentes?
- Alguns, respondeu Ali-Babá. Tive a família maior; infelizmente, não faz
muito tempo, perdi um irmão querido,
vítima de mal súbito!...
Então, era irmão de Ali-Babá, o homem que estava oculto
no bosque e que fora dado como morto!... Isso pensou o chefe dos ladrões
imediatamente e indagou, escondendo um
sorriso:
- Vós éreis muito unidos, senhor?
- Bastante, respondeu Ali-Babá. Não tínhamos segredos,
um para o outro...
Não havia dúvida. Ali estava um dos homens que conhecia o segredo da
caverna na rocha.
- Exterminarei toda essa família, pensou o bandido. Depois vasculharei
todo o bosque e hei de achar o outro homem que lá se escondeu.
Depois, em voz alta, o bandido falou:
- Irei até o pátio olhar minha carga e fazer a digestão
de tão farta ceia.
- Quer que o acompanhe? indagou Ali-Babá.
- Não, não! apressou-se em dizer o outro. Já bastam os
incómodos que lhe causei!...
Ali-Babá foi então até à cozinha e disse a Morjiana que
lá estava:
- Irei amanhã cedo à casa de banhos. Cuida de meu hóspede em minha
ausência. Manda que um escravo me prepare um traje e tu mesma me faze uma
refeição, para quando
eu voltar.
Depois de dar tais ordens Ali-Babá recolheu-se aos seus aposentos privados,
onde sua mulher e seus filhos o esperavam.
O chefe dos ladrões, no entanto, saíra para o pátio. Aproximando-se
disfarçadamente de cada barril como que a inspecioná-lo, ia murmurando:
- Atenção! Meu sinal será umas pedrinhas que atirarei da janela do
quarto de hóspedes nos barris. Nesse instante saiam desse esconderijo pois
imediatamente virei ter aqui para novas ordens.
- Entendido, chefe! Ia dizendo cada um dos ladrões avisados.
O bandido entrou na casa. Vendo-o Morjiana tomou o lampeâo da
cozinha e guiou o suposto hóspede até seu quarto.
- Se precisar de algo, basta chamar-me, disse ela por fim.
- Não se incomode. Estou perfeitamente satisfeito, respondeu o
bandido.
Temendo no entanto que a serva voltasse para lhe trazer algo, o chefe dos
ladrões achou melhor deitar-se. E assim fez, metendo-se vestido e de
sapatos sob as cobertas. Esperaria que todos dormissem e só depois
executaria o resto de seu plano.
Morjiana, depois de o deixar, voltou à cozinha. Excelente servidora que
era, queria providenciar o que seu amo lhe pedira. Viu ela mesma o traje
que ele pedira, entregando-o ao escravo que o ajudaria na manhã seguinte a
se vestir após o banho. Depois resolveu pôr no fogo um caldo que já ficaria
pronto para a sopa. Desse modo não se atrasaria e Ali-Babá, mal voltasse da
casa de banhos, encontraria pronta a sua refeição.
Mal levara a panela ao fogo, porém, eis que a luz do candeeiro se
apagou.
- Que transtorno, disse Morjiana ao escravo, atarantada. Ainda tenho o
que fazer e a luz se apaga! Onde irei encontrar óleo a uma hora dessas?!...
- Muito fácil, respondeu o escravo. Vai ao pátio e toma um pouco de
óleo num dos barris do forasteiro. Depois de tão boa acolhida ele não fará
questão de prestar-nos tal favor.
- Boa ideia! exclamou Morjiana. Agradeço-te muito esse conselho.
Tomando então de um pote, Morjiana saiu silenciosamente para o pátio,
pois não queria incomodar seus amos com barulho.
Ao aproximar-se de um dos barris, porém, quase morreu de susto. É que
de dentro deste, alguém lhe perguntou:
- Chefe, está na hora?
Morjiana emudeceu por uns instantes. Imediatamente, porém, recuperou-
se do susto. Esperta como era, calculou que dentro dos barris, em vez de
óleo havia homens e que estes lá não estariam por simples brincadeira.
Não gritou, apesar de ter a certeza de que a casa em que servia corria
tremendo risco.
Em lugar de fugir, tomou de coragem e engrossando a voz, disse num
sussurro:
- Ainda não! Aguarde ordens!
Morjiana compreendera todo o plano. Seu amo, que tão bem recebera o
mercador, que o julgava bom e honrado, dera abrigo a uma perigosa
quadrilha. E esta, na certa, daria cabo da família inteira se, por um feliz
acaso, não tivessem sido descobertos.
- Mas aqui estou para defender meu amo, pensou Morjiana.
Foi então de barril em barril repetindo a proeza que fizera com o
primeiro. No último, que realmente continha azeite, encheu seu pote e
voltou à cozinha. Lá encheu a lâmpada e acendeu-a. Tomou então o maior
caldeirão que encontrou e foi encher no barril do pátio. Em seguida, voltou à
cozinha colocando no fogo o caldeirão.
Ficou depois à espera, ansiosa.
- Assim que o azeite ferver vou lá fora e despejo um pouco em cada barril,
pensava ela. Garanto que nenhum desses bandidos se salvará!
Pouco depois o azeite borbulhava! A escrava aproximou-se do caldeirão e ia
segurar-lhe a alça quando uma bolha de óleo, estourando, salpicou-lhe o braço.
- U£! como queima! exclamou ela. E, imediatamente pensou:
- Que morte horrível! Por piores que sejam esses bandidos não serei tão
cruel. Hei de descobrir outro modo de me livrar deles.
Seu espírito inventivo não tinha limites. Não precisou pensar muito para lhe
ocorrer novo plano.
Indo à adega de Ali-Babá trouxe de lá várias botijas de vinho. Abriu-as, uma
por uma e nelas despejou um forte narcótico. Depois, levando-as para o pátio,
bateu de leve na tampa de cada barril.
- Que há? perguntava um ladrão de cada vez. Ela, então, suspendendo a
tampa o mínimo possível, dava-lhe uma botija silenciosamente.
- Obrigado, chefe! murmurava feliz cada bandido. Bem sabemos que não
se esquece de nós. Assim nos será mais fácil esperar a hora do ataque.
Pouco depois um silêncio profundo se fez na vivenda. Todos dormiam,
menos o chefe dos ladrões, que aguardava na cama, e Morjiana que espreitava
por uma janelinha aberta para o pátio.
- Durmam, bandidos! murmurava a escrava. Amanhã, quando despertarem,
estarão em bons lençóis. Aprenderão assim o que custa assaltar a casa de um
homem honrado e bom como Ali-Babá!...
CAPÍTULO 6
O PLANO QUE FALHOU
Com o silêncio da noite, alguém espreitava. Lá fora nem o mais leve ruído se
fazia ouvir.
- Dormem todos! É hora da vingança! murmurou o chefe dos ladrões
erguendo-se da cama.
Foi até à janela que abriu e olhou o pátio deserto e quieto, mal iluminado
pelas estrelas.
Metendo a mão no bolso, o bandido dele retirou várias pedras que de
propósito guardara. Deu então o sinal combinado, atirando-as nos barris lá
embaixo.
Esperou uns momentos mas, nada!... Nem o mais leve movimento se fez
no pátio escuro. Outras pedrinhas foram atiradas. Em vão!
- Que terá acontecido? Dormirão meus homens? Essa hipótese era
incerta pois, além de muito fiéis ao chefe, os ladrões, tão mal acomodados,
não poderiam cair facilmente no sono. O homem estava assustado!
Sem fazer o mínimo ruído, desceu ao pátio e aproximou-se do primeiro
barril.
- É hora, murmurou bem perto com voz baixa mas autoritária.
Não obtendo resposta, alarmado já, ergueu a tampa e olhou para dentro.
Lá estava um dos homens, inerte, de olhos esbugalhados e boca aberta.
- Morto! disse o chefe, apavorado.
Imediatamente correu aos outros barris. Em cada um deles
constatou a mesma coisa.
- Não pode ser! disse o chefe dos ladrões. O buraco que fizemos foi
demasiado pequeno...
- Morjiana, chamou, desperte meu hóspede para que não chegue demasiado
tarde ao mercado.
- Não vos inquieteis, meu amo, tornou a escrava. A mercadoria de vosso
hóspede dificilmente seria comprada...
- Que dizes? Azeite bom não se vende no mercado?...
- Azeite sim, meu amo, mas não ladrões... replicou Morjiana.
- Explica-te, pequena. Ou não te entendo ou acordaste com vontade de
brincar, disse Ali-Babá um pouco irritado.
- Meu amo, rogo-vos que me acompanheis. Só assim compreendereis o que
vos digo.
Ali-Babá seguiu Morjiana até o primeiro barril.
- Olhai, senhor, disse a jovem erguendo a tampa. Dizei-me agora se é azeite
o que o barril contém.
- Céus! que vejo eu! Um homem armado até os dentes! Ali-Babá estava
petrificado de espanto e pavor.
- Sossegai, disse Morjiana. Esse homem é um bandido mas não vos fará mal.
- Que quer dizer tudo isso, Morjiana? perguntou Ali-Babá.
- Vou explicar tudo o que sei, respondeu Morjiana. Peço-vos, no entanto,
que vos acalmeis para não chamar a atenção dos servos e vizinhos. Olhai todos
os barris!
Cada tampa que Ali-Babá erguia causava-lhe mais espanto. Por último, deu
com o único barril de óleo, quase pela metade. Nada compreendia. Olhava para
Morjiana e para os barris, simultaneamente.
- Não devemos conversar aqui, pois seremos ouvidos, disse a escrava. Esses
bandidos estão narcotizados e nem um terremoto os despertaria. Vamos pois à
sala, onde tenho pronta para vós a refeição matinal. Lá conversaremos.
- E o mercador? perguntou Ali-Babá. Certamente faz parte da quadrilha e...
Morjiana interrompeu-o:
- O mercador, meu bom amo, é menos mercador que eu própria. Já não
está nesta casa, felizmente! Contar-vos-ei que fim levou.
Ali-Babá concordou com a jovem serva e, entrando em casa, sentou-se à
mesa da sala. Morjiana serviu-o calmamente e depois contou-lhe tudo o que
se passara na véspera, pormenorizadamente. Não se esqueceu de narrar que,
dias antes, notara na porta de entrada estranhos sinais e como fizera para
inutilizá-los.
- Tudo obra dos ladrões do bosque, senhor. Planejavam matar-vos. Vós
e vosso irmão Cassim descobriram-lhes o segredo e eles não descansarão
enquanto não vos eliminarem.
- Tens razão, Morjiana. Sempre esperei por essa perseguição. O que não
julgei é que fossem tão ousados!
- Ah! senhor, respondeu Morjiana, de bandidos tudo se deve esperar!
Vede vosso irmão! Tanto tempo se passou e ele, no entanto, teme ainda
voltar para casa.
- Pobre irmão! exclamou Ali-Babá. Como deve sofrer escondido no
bosque! Talvez passe fome e frio...
- Saberá defender-se, sossegai. O senhor Cassim sabe o que faz. A nós,
no entanto, cabe deliberar sobre os ladrões que estão lá fora, replicou a
cuidadosa escrava.
- É verdade! Creio que os deveria entregar à justiça do Sultão!
exclamou Ali-Babá.
- Sim, concordou Morjiana. Mas não antes de caçar-lhes o chefe. Desse
modo, o Sultão vos será para sempre grato!
- Que faremos deles então? perguntou Ali-Babá.
- Podemos prendê-los no porão da casa. Abdalá, vosso escravo, é
discreto e nos ajudará.
Realmente a vivenda em que Ali-Babá morava agora tinha enorme porão,
muito bem fechado, onde às vezes se guardavam fardos de mercadorias.
Ali-Babá, o servo Abdalá e Morjiana, rolaram os barris um a um até a
entrada do porão. Depois, deles retiraram
os ladrões narcotizados, desarmaram-nos e os amarraram fortemente. Em
seguida dispuseram-nos e melhor possível no porão, que fecharam
cuidadosamente, com chaves e cadeados. Os barris de azeite foram
queimados e as armas cuidadosamente escondidas.
- E os burros? Que fazer com tantos? perguntou Ali-Babá
que, vendo a astúcia e dedicação de Morjiana se entregara
às suas mãos.
- Deixa por minha conta, amo, respondeu esta.
E então, voltando-se para Abdalá, que era de sua inteira
confiança, disse:
- Abdalá, vai ter ao mercado e vende os burros I Assim,
em lugar de prejuízo, esses bandidos ainda darão lucro ao
nosso amo!
- Quanto te devo, minha boa serva? exclamou por fim
Ali-Babá. Mas hoje te juro que tua dedicação não ficará sem recompensa.
Prometo-te que não te arrependerás desse
cuidado que tens comigo e com minha família!...
- Senhor, respondeu então Morjiana, só me causa alegria
zelar pela vossa vida e vosso bem. Nada mais faço que bem cumprir o dever
que me impõe a minha condição!...
CAPÍTULO 7
CODJA HUSSAM, O FALSO MERCADOR
O chefe dos ladrões voltou ao bosque. Além de desgostoso pela perda dos
companheiros de tantos anos de aventuras e pilhagens, estava furioso.
- Maldito Ali-Babá! murmurava ele. Quanta desgraça nos trouxe, enquanto
que ele próprio vive tranquilamente em abundância!
Então passado algum tempo, o chefe dos bandidos foi para a cidade como
comerciante.
- Eis-me estabelecido entre honestos lojistas, pensou ele sorrindo.
Não sabia porém que bem em frente à sua loja ficava a de Cassim,
dirigida agora pelo filho de Ali-Babá!...
O chefe dos bandidos fez-se conhecer entre os vizinhos pelo nome de
Codja Hussam. Em seguida tratou de fazer amizades. E, em pouco tempo,
travou excelente amizade com o filho de Ali-Babá.
Qual não foi sua surpresa - surpresa e alegria - ao ver Ali-Babá visitar
o amigo e saber que era seu pai!
- A sorte me ajuda! pensou ele. O inimigo virá ter às minhas mãos sem
o menor trabalho!...
Falso e sem escrúpulos como era, valeu-se da simpatia que o ligava ao
jovem vizinho. Pôs-se a visitá-lo com frequência, presenteando-o e
convidando-o para passeios e jantares.
- Meu pai, disse um dia o rapaz a Ali-Babá, tenho um vizinho que não
cessa de me fazer gentilezas. Gostaria de retribuir tantas provas de afeição.
- Naturalmente, filho, respondeu Ali-Babá. Se quiseres, eu próprio me
encarregarei de oferecer-lhe um banquete.
- Ótimo, pai. Eu bem sabia que vós me ajudaríeis.
- Fala então com teu amigo. Amanhã é feriado e os mercadores
fecharão suas lojas. Convida-o para um passeio e depois, traga-o para jantar.
Morjiana fará os pratos mais finos que se possam oferecer.
O filho de Ali-Babá aceitou o oferecimento do pai. Convidou Codja
Hussam para um passeio e depois conduziu-o à casa paterna.
- Eis a casa de meu pai, disse ele lá chegando. Falei-lhe de nossa
amizade e quis então oferecer-te um jantar. Far-nos-ás um favor, aceitando o
convite.
Enfim! Ali estava o inimigo abrindo as portas da casa para que nela
entrasse a vingança! Um leve temor assaltava
porém Codja Hussam. Várias vezes já falhara junto a Ali-Babá. Além de mau, no
fundo, era covarde. Disse pois:
- Deixemos o jantar para outro dia! Hoje já passeamos muito!
Já um escravo abria a porta, porém. E o bandido não teve outro remédio,
senão penetrar naquela casa onde já tentara cometer terrível crime.
- Meu amigo, disse Codja Hussam ao filho de Ali-Babá antes que esse o
viesse receber, peço-lhe que mande apagar alguns candeeiros. Tenho os olhos
doentes e não posso suportar a luz artificial!
Imediatamente o crédulo rapaz deu ordens para que só uma lâmpada se
conservasse acesa.
Nesse momento, Ali-Babá entrou na sala e veio cumprimentar o amigo de seu
filho.
- Muito vos agradeço o interesse e a amizade que tendes por meu filho. A
companhia de um mercador experimentado só pode ajudá-lo. E não só ele vos é
agradecido como eu também.
- Vosso filho não tem experiência mas tem bom-senso o que vale muito
mais! respondeu Codja Hussam, lisonjeiro.
Depois de conversarem um pouco o bandido fingiu querer retirar-se.
- Mandei fazer um jantar para vós, disse Ali-Babá. Peço-vos que aceiteis
minha modesta hospitalidade.
- Se é assim, nada mais me resta que ficar e agradecer, disse Codja Hussam.
Na cozinha, Morjiana estava furiosa e intrigada.
- Como, dizia ela ao escravo Abdalá, como servir um banquete no escuro!
Enfeitei meus pratos com capricho, perdi horas em ornamentações e eis que agora
não serão apreciados.
- Não te zangues, Morjiana, respondeu Abdalá. O homem sofre dos olhos.
- Pois muito me admira que lhe faça mal a luz das velas se mercadeja
ao sol, que é mais forte. Aqui há algum mistério.
Assim dizendo, Morjiana tomou de uma travessa, indo levá-la à mesa.
- Céus! pensou ela mal encarou o visitante. Que perigo corre meu amo.
Conheço muito bem este semblante duro! É o chefe dos ladrões e vem na
certa vingar-se de nós! Por isso quis pouca luz, o infame. Teme ser
reconhecido e acha mais fácil praticar o seu crime na penumbra! Preciso
fazer algo!
O bandido, por seu turno, arquitetava um plano.
- Vou deixar que se embriaguem; eu próprio, porém, só fingirei que
bebo. Depois será fácil apunhalá-los e mais fácil ainda fugir pelo jardim
como já fiz uma vez.
A refeição corria animada. Apesar da pouca luz que tornava triste o
ambiente, as iguarias eram saborosas e o vinho delicioso.
- Bebamos à saúde dos jovens, dizia Codja Hussam!
- E agora à vossa! propunha Ali-Babá, animando-se. Na cozinha,
Morjiana procurava um meio de salvar seu amo e o filho. O principal era não
deixar os três a sós. Que fazer para, sem chamar atenção, permanecer na
sala? Uma ideia ocorreu-lhe. Indo depressa ao seu quarto vestiu um rico e
belo traje de dançarina. Cobriu depois o rosto com um véu bordado de ouro e
prata e chamou Abdalá.
- Pega o teu tamborim e vamos à sala. Já que não têm luzes que
abrilhantem o banquete ao menos terão alguma distração! Dançarei para ele
o "Bailado da Penumbra".
Abdalá obedeceu e, mal entraram na sala, Ali-Babá exclamou:
- Vem, minha bela escrava. Meu ilustre hóspede há de gostar de tuas
maravilhosas danças.
Morjiana pôs-se então a bailar. Era leve e graciosa. Acompanhada pelo
ritmo do tamborim, pôs-se a rodopiar sobre os pés delicados, fazendo suaves
meneios com os braços erguidos.
- Não penseis que esta diversão me custa caro! murmurou Ali-Babá a
Codja Hussam. Calculai que o tocador é meu escravo e a bailarina a mesma
pessoa que fez estes manjares.
Codja Hussam não tinha o menor interesse no bailado. Queria somente uma
oportunidade para se vingar.
O filho de Ali-Babá, no entanto, não tirava os olhos de Morjiana. Há muito
notara-lhe a graça e a beleza. Só agora, porém, a via dançar. E pensava,
consigo mesmo:
- Como pode ser escrava tão bela criatura? Pedirei a meu pai que a liberte.
Não sabia, porém, que além de bela, a jovem escrava os salvava de um
terrível inimigo.
CAPÍTULO 8
AS BODAS NO PALÁCIO
Morjiana dançava sem descanso. Seu corpo delicado e ágil parecia vacilar,
exausto. A jovem, porém, não queria abandonar seus amos enquanto Codja
Hussam não se fosse.
- Basta, Morjiana, disse o próprio Ali-Babá. Teu bailado é lindo mas não
deves te fatigar tanto!...
- Sim, meu amo. Antes, porém, executarei para vós o "Bailado do
Guerreiro", respondeu a jovem escrava.
Imediatamente tomou de um bastão de prata e iniciou uma dança ritmada,
onde imitava uma luta entre espadachins. Aproximou-se de Ali-Babá, seu filho
e seu hóspede. Com gestos graciosos fingiu ferir o amo e este, sorrindo, deu-
lhe uma moeda de ouro. Em seguida, aproximando-se do filho, repetiu o
movimento. Nova moeda de ouro lhe foi
oferecida.
Codja Hussam, esperando a sua vez, meteu a mão no bolso
para de lá retirar uma moeda. Mas, ai dele! Morjiana, aproximando-se, golpeou-
o na cabeça, com tal força, que o bandido desmaiou, caindo de costas no tapete.
- Desgraçada! gritou Ali-Babá, que fizeste ao nosso hóspede? Queres nos
arruinar?
- Ao contrário, gritou Morjiana. Acabo de salvar-vos!
E a escrava, abrindo a túnica do homem que ali estava, inerte, mostrou aos amos o
punhal que este escondia entre
as vestes.
- Que significa isso? Disse ainda Ali-Babá, indignado.
Por acaso não pode um mercador andar armado?
- Ah! Senhor! exclamou Morjiana. Olhai bem esse homem! Vede! Não
reconheceis nele o mercador de azeite? Lembrai-vos de que não queria luz!
Temia ser reconhecido pois outro não é senão o chefe dos ladrões do bosque.
Desconfiei logo dele, felizmente. E. vos pude salvar.
- Oh! céus! Morjiana tem razão! Filho, ajuda-me a amarrar esse homem!
Depois prendê-lo-emos no porão, ao lado
de seus comparsas.
Assim foi feito. Morjiana ajudou-os em tudo. Só depois,
já tranquilo, Ali-Babá dirigiu-se à escrava:
- Minha filha - estás livre. Várias vezes salvaste nossas vidas. És bela,
inteligente e dedicada. E para te provar toda a minha gratidão, dar-te-ei tudo o
que pedires.
- Nada mais quero, senhor, que a vossa amizade e a de
todos os vossos.
Assim dizendo Morjiana olhava com ternura o filho de Ali-Babá.
- Pois bem, disse-lhe então o amo, para que te sintas melhor ainda entre
nós te farei minha nora. Depois, voltando-se para o filho, perguntou:
- Meu filho, aceitas Morjiana como esposa? Não poderias encontrar
companheira melhor, mais bela ou inteligente. Não quero, no entanto, te
obrigar a nada.
- Pai, respondeu o moço demonstrando enorme alegria, não desejo vos
desobedecer... Além disso, há muito tempo sinto forte atração pela nossa
Morjiana!...
Ali-Babá estava felicíssimo! Não só conseguira se livrar de todo o bando
de ladrões como casava o primogénito com uma jovem formosa e que, pela
sua dedicação e inteligência, valia o próprio peso em ouro.
- Darei uma esplêndida festa de casamento para ambos, disse ele.
- Antes, no entanto, aconselho-vos a vos livrar dos bandidos presos no
porão. Ainda que não vos incomodem em nada, são sempre várias bocas a
alimentar. Isto sem falar na vigilância a que nos obrigam, aconselhou a ex-
escrava.
- Tens razão, minha filha. Hoje mesmo irei ao palácio do Sultão e o
porei a par de todo o acontecido.
E Ali-Babá, fazendo-se acompanhar por um escravo, dirigiu-se mais tarde
ao Palácio Real.
Como se tornara rico e respeitado na cidade, foi-lhe fácil ser recebido
pelo Sultão. Depois de presenteá-lo com um finíssimo brocado que trouxera
da loja do filho, contou-lhe detalhadamente sua história. A cada palavra o
semblante do monarca demonstrava maior alegria. Terminada a narrativa,
disse Ali-Babá:
- Bem sei que nada mais fiz que minha obrigação. Sei também que esses
ladroes pouco vos perturbavam. Quis, no entanto, pôr-vos a par de algo que
se passou em vosso reino.
- Engana-se, meu bom Ali-Babá, exclamou o monarca. Realmente faz
anos que sei de assaltos e banditismos em meu reino. Meus soldados e oficiais
já têm feito tudo para descobrir os responsáveis. Nada conseguiram até hoje,
porém, a não ser constatar que a quadrilha que agia era de muitos homens! Se
não fosses tu, por quanto tempo ainda continuariam eles a praticar seus
crimes?
- Muito me alegra então, senhor, replicou Ali-Babá, se
vos servi em algo importante.
- Saberei recompensar a ti e a tua ex-escrava, disse o
Sultão.
Um pelotão de oficiais foi escalado para acompanhar Ali-Babá à sua casa.
Lá chegando aprisionaram os ladrões e seu chefe, que foram encarcerados em
seguida.
Depois um mensageiro trouxe a Ali-Babá um convite enviado pelo Sultão,
onde se lia:
"Sua Majestade, o Sultão Al-Raschid vos convida e a
vossa ilustre família, para a festa que dará nas bodas de
Ahmed Babá e Morjiana a serem realizadas no Palácio".
- Que honra! exclamou Ali-Babá ao ler a mensagem. Meu filho se
casará no palácio real!
E assim foi. Na data marcada o Palácio do Sultão abriu suas portas e uma
festa belíssima foi dada.
Os jovens não cabiam em si de contentes. Aliás toda a família se
regozijava e até os vizinhos louvavam Ali-Babá por ligar dois entes feitos
um para o outro.
Terminada a festa o Sultão chamou Ali-Babá e disse:
- Quero que amanhã me acompanhes à gruta do bosque. Verei com
meus próprios olhos os tesouros de que falas.
- Será grande honra acompanhar-vos, senhor, respondeu Ali-Babá.
No dia seguinte, com uma escolta, seguiram ambos para o bosque.
- Abre-te Sésamo! gritou Ali-Babá ao chegar diante do rochedo.
Imediatamente a porta de pedra se abriu e o Sultão e o ex-lenhador
penetraram na rocha.
Lá estava o tesouro dos ladrões! Nem um canto da gruta havia em que não
se amontoassem pedrarias, ouro, peles, brocados e objetos de arte.
- Ali-Babá, disse então o monarca, voltaremos aqui e trarás duzentos
burros de carga. Será teu tudo aquilo que neles puderes carregar!
- Senhor! exclamou Ali-Babá emocionado.
- O resto do tesouro ficará para meu reino, sendo que, dessa parte, a
metade será distribuída entre os meus pobres!
- Magnânimo senhor, disse, Ali-Babá, eu e toda a minha família vos
seremos eternamente gratos. Mas...
- Fala homem! pediu o Sultão. Falta-te ainda alguma coisa para que
sejas feliz?
- Sim, senhor! Não posso gozar a vida entre os meus, não posso
desfrutar de tantos bens, sabendo que, oculto no bosque, meu pobre irmão
Cassim sofre e passa necessidades!
- Tens razão, Ali-Babá, disse o Sultão. Mandarei que meus guardas o
procurem.
Todas as buscas porém foram inúteis. O bosque foi cortado em várias
direções pêlos guardas do palácio. De Cassim, nem sombra, a não ser, aqui e
ali, uns restos de fogueira apagada.
Passavam-se os dias. Ali-Babá, sua esposa, seus filhos e sua cunhada
viviam honrados e felizes, cercados de conforto e respeito. Ahmed, e
Morjiana, por sua vez numa bela vivenda, gozavam a doce felicidade de
recém-casados que se amam.
Uma sombra porém toldava a ventura de toda a família.
- Onde estará meu pobre irmão Cassim? murmurava todas as noites Ali-
Babá de sua janela, olhando o horizonte
em direçâo ao bosque.
Certo dia em que se divertia passeando entre as belas
árvores floridas de seu jardim, Ali-Babá viu aproximar-se
um mendigo do portão.
- Entra, pobre homem, exclamou ele. Mandarei que te
sirvam uma sopa e te darei um traje decente...
O mendigo, no entanto, quedou-se imóvel, titando-o,
apenas.
Ali-Babá estremeceu. Algo havia naqueles olhos tristes que
o perturbava. Súbito, lançando-se ao encontro do outro
gritou:
- Cassim! Meu irmão!
Era Cassim, realmente! Depois de chorarem antes um nos
braços do outro, Ali-Babá fez o irmão entrar em casa. Alimentou-o, vestiu-o e soube
toda a sua história.
- Depois de fugir dos ladrões, embrenhei-me no mato. Passei a dormir sobre
árvores, alimentando-me de frutos ou
raízes...
- E por que não voltaste para casa? Indagou, Ali-Babá.
- Ah! irmão, cada vez que tentava sair do bosque, deparava com um ladrão
ou sentia-lhe a proximidade. Além disso,
temia tua ira...
- Jamais te odiei! interrompeu-o Ali-Babá.
- Por que és bom! Eu bem que a merecia, pois fui invejoso, mau e cedi à
cobiça! Quanto me arrependi de meus atos no tempo em que vivi na solidão!
respondeu Cassim. Só quando não mais percebi a proximidade dos bandidos
é que me atrevi a voltar.
- Agora, porém, esquece tudo isso! Partilharei contigo
meus bens e seremos felizes até que Deus nos chame!
A cunhada de Ali-Babá foi chamada e quase morreu de alegria ao rever o
esposo que julgava perdido!
Desde então, naquela honrada família, reinou a prosperidade e a ventura.
E os netos dos netos de Ali-Babá foram ricos e justos ainda, graças à
herança do ouro e honradez deixada pelo pobre lenhador que descobrira um
dia o segredo dos quarenta ladrões.

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